Resenha

Witcher 3 e como resolvi o mistério do desaparecimento da mulher do caçador.

Estava naquela minúscula vila de passagem, apenas querendo adquirir suprimentos extras para uma missão importante, mas é claro que não poderia deixar de ajudar um caçador desesperado para encontrar sua esposa. Não recusaria o ouro dele. Minhas espadas enferrujavam rápido demais naquela região pantanosa e ainda tinha que remendar meu gibão depois do último encontro com aqueles malditos afogadores. Escutei seus lamentos, o homem do campo deu pelo sumiço de sua mulher já havia algumas semanas. Péssimas notícias para uma região como aquela, cercada de bestas traiçoeiras e desertores fugindo da guerra.

Sei onde aquilo daria, mas teria que investigar, esse era meu trabalho. Peguei dois nomes com o caçador, pessoas próximas a ele e a sua esposa. As vezes um sumiço repentino poderia significar uma fuga planejada por algum motivo, mas as notícias não eram boa dos relatos que coletei. Um carpinteiro da vila tinha muito contato com ela, possuía dois filhos pequenos que o ajudavam na labuta diária e foi um deles que me informou que viu a mulher entrando na floresta com mais uma pessoa, uma que ele não conseguiu enxergar quem era. Já sua irmã, apenas chorava e lamentava seu chá de sumiço, falava que durante a noite os lobos estavam uivando mais do que o normal já faziam alguns meses. Até os homens do barão da região tinham medo de entrar na floresta. Ela não nutria esperanças.

Encontrar algo vivo naquela floresta iria se provar difícil, só um milagre faria ela se safar dos animais e de outras coisas até mais perigosas. Mas não sou de tirar conclusões precipitadas, um bruxo vê muita coisa acontecer nos anos de estrada – e eu já tinha muitos.

Entrei na floresta e antes mesmo que me afastasse demais já estava cercado por uma matilha de lobos selvagens bem agressivos. Estranho. Aqueles animais caçam nas profundezas de florestas, não costumam ficar tão próximo do contato humano. Não tive muita dó deles, ainda mais um grupo como aquele que mataria qualquer um que desse sopa. Como a mulher de um caçador.

Encontrei o cadáver de uma vaca bem próximo, a julgar pelos animais liquidados, estavam se alimentando dela até notarem minha presença. Me aproximei e investiguei a carcaça. Suas entranhas estavam completamente expostas e sua pele rasgada em um padrão muito maior do que por garras e presas de lobos comuns. Foi atacada por algo muito maior.

O que quer que tenha sido, não era nem um pouco cuidadoso. Deixou marcas por todo o lugar, marcas de garras em árvores destroçadas, galhos esmigalhados e pegadas fundas. Foi fácil seguir seus rastros, principalmente quando eles fediam a sangue e morte. Fui enviado até uma cabana em uma clareira no fundo da floresta. Infelizmente no caminho, fui abordado por um urso que só achava que o estava desafiando por entrar em seu território. Pena, não era o meu monstro, mas aproveitaria sua pele e sua carne para o futuro.

A casa estava vazia e sem nada de valor, apenas um baú trancado, grande demais para ser carregado, poderia ter algo valioso dentro e apostaria todas as minhas cartas de gwent que estava certo. Mas entrar na casa foi um mero ato investigativo secundário, pois os rastros não indicavam nada de estranho dentro dela, eles terminavam na parte de fora, em uma entrada estreita que dava para uma caverna subterrânea abaixo da construção. Havia sangue e roupas jogadas no chão, não roupas rasgadas como de vítimas sendo despidas, mas algo deliberadamente ficou nu. Isso era um detalhe importante, mas a conclusão final só veio quando encontrei no fundo daquela escuridão uma pasta mal cheirosa que muito provavelmente já fora a mulher do caçador.

Já sabia com o que estava lidando.

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Faltavam algumas horas até o anoitecer e usei esse tempo livre para a preparação. Coletei algumas ervas e preparei um óleo especial contra feras, banhei minha espada de prata com ele. Aproveitei também para preparar uns cataplasmas e poções com o material que levava de viagem, é sempre bom prevenir. Não demorou muito até escutar um longo e sonoro uivo. A julgar pela distância estava a menos de um quilômetro dali, mas não demoraria muito tempo até a coisa voltar para sua toca.

Esperei na caverna de uma forma a fazer a fera achar que eu estava indefeso.

Não estava.

A batalha foi difícil, não vou negar, principalmente porque o lobisomem estava acompanhado de três lobos menores. A licantropia explicava o comportamento anormal dos lupinos da região, alguém havia sido amaldiçoado e a julgar pelos relatos não fazia mais que um ano. O óleo foi efetivo, impedia parcialmente a regeneração da criatura e causava muita dor. Com quen, invoquei um escudo protetor, mas as garras da fera eram afiadas demais e se não fosse o feitiço e meu gibão, estariam minhas tripas rolando caverna abaixo. Igni agiu melhor, uma combustão espontânea saltava entre meus dedos depois da invocação e fazia o pêlo seco e gorduroso do monstro uma boa vela, pelo menos por tempo o suficiente para alguns golpes acertivos. Feras tem medo de fogo, disso eu bem sabia.

Fui surpreendido próximo dos golpes derradeiros que me dariam a vitória, minha lâmina parou no ar quando um grito estridente ecoou pela caverna. Até a fera parou para entender o que estava acontecendo. A vida de bruxo nunca parava de me surpreender.

A irmã da mulher do caçador correu e se entrepos entre mim e o lobisomem. “Pare!”, ela gritou. E por mais que tentasse tira-la dali, a louca insistia em não me deixar terminar o serviço. Gritei de volta, bastante irritado.

“Ele não sabia, foi um acidente! Eu a trouxe aqui com esperança de que ao ver a situação de seu marido, o abandonasse. Deu errado. Terrívelmente errado. A culpa foi toda minha, eu apenas queria ficar com o homem que amo de verdade.”

Que irônico, o próprio caçador amaldiçoado não sabia o que sua própria cunhada tinha tramado.

“O quê!?” Grunhiu a fera. “Por isso tinha gosto de sangue em minha boca naquele dia.”. Era óbvio, o infeliz destrinchou tanto a pobre esposa que nem a reconheceu entre os dentes. “Vai pagar pelo que fez!”

O caçador, que agora se resumia a uma besta enraivecida, investiu contra a pobre garota, que nada podia fazer contra sua ira. Eu poderia ajuda-la, mas se tem uma coisa que aprendi nessa vida na estrada, era que dentre os males, o pior era se meter. E nesse mundo dar de bom samaritano sempre se volta contra você.

“Faça o que quiser com ela, mas se o vir de novo, terminarei o serviço.” Virei as costas e apenas escutei os gritos da infeliz. O amor é uma merda. Sem homem, sem irmã e agora sem a vida.

Me afastei da cabana quando meus aguçados sentidos perceberam uma aproximação rasteira. O lobisomem me seguia. “Termine com isso”. Rosnou para mim entre os dentes.

“Não gostaria de fazer isso, sei que esse lugar só serve para você se afastar e não machucar ninguém, o que aconteceu foi um acidente. Viva sua vida da melhor maneira como melhor lhe convir.”

“Desde que essa maldição se iniciou não tenho paz, mas pelo menos minha mulher estava comigo em meus momentos de lucidez. Não há mais sentido na minha existência se não for com ela em meus braços. Nunca tive coragem de fazer isso eu mesmo, você é minha única chance.”

Havia me convencido, besta estúpida. A lâmina atravessou a cabeçorra da criatura com muita resistência. Pele dura do desgraçado. Um último grunhido foi apenas o que soltou. Preparei uma cova funda até o amanhecer, não queria atrair carniceiros ali. Achei na calça da fera a chave que abria o baú daquela cabana maldita.

Era o suficiente pelo pagamento.

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