Resenha

Sherlock Holmes de Guy Ritchie faz juz à literatura?

Os fãs ardorosos do detetive criado por Arthur Conan Doyle podem torcer o nariz para os 2 filmes protagonizados por Downey Junior (Sherlock Holmes (2009) e SH: Game of Shadows), por achá-lo afetado, modernoso, metido a espertalhão etc. A lembrança de encarnações clássicas nos cinema e televisão protagonizadas principalmente por Basil Rathbone e Jeremy Brett não deixam o fanático ranzinza olhar de forma imparcial para as películas e principalmente para a atuação do elenco americano nas produções.

O diretor Guy Ritchie tem um fraco por anti-heróis, em seus melhores filmes – “Look, Stook and Two Smoking Barrels”, “Snatch”- e em seus não tão bons, mas ainda assim razoavelmente eficientes- como “Rocknrolla” e “Revolver”- o círculo de protagonistas é composto por criminosos glamourizados, distante dos padrões morais comuns (sempre que se afastou desses estereótipos, não obteve muito boa repercussão, vide o pavoroso “Swept Away”, protagonizado por Madonna, com uma das atuações mais sofríveis de seu repertório). A direção com cortes secos, e câmera rápida faz seu estilo de filmagem ser reconhecido de longe por um olhar mais atento, e talvez esse seja o maior problema com relação à adaptação de Sherlock Holmes. O fã “antiquado” não quer ver uma Inglaterra vitoriana no estilo “MTV anos 90”, não quer ver uma releitura de Holmes do tipo Nolan-Batman, pra esse tipo de público, nada atual vai ser interessante – nem mesmo a adaptação da BBC 1, com Bernard Cumberbatch – e principalmente, não quer ver Tony Stark nocauteando Professor Moriarty e interagindo com o inspetor Lestrade.

Vejamos… quais são meus outros defeitos? Ás vezes fico deprimido, e passo dias a fio sem abrir a boca. Não deve pensar que estou amuado nessas ocasiões. Basta deixar-me em paz que logo volto ao normal… É melhor que dois sujeitos saibam o pior um do outro antes de começarem a morar juntos” Sherlock ao se apresentar a Watson em “ Study in Scarlet – 1887

Sherlock tinha problemas pra se livrar da cocaína, era misógino – fato simplificado nos filmes na sua relação com Mary Morstan, noiva de Watson – podia ficar semanas trancado, sem contato com o mundo exterior, enquanto não tivesse um novo caso intrigante para resolver, tinha uma natureza boêmia, e tinha poucos escrúpulos, podendo até mesmo burlar a lei, por mais que tivesse por ela um grande apreço, mas sobretudo, o personagem parecia não suportar muito o convívio social padrão, era quase misantrópico. Robert Downey faz um Sherlock malandrilson, arrogante e bem afetado – a obsessão sobre Watson, principalmente no segundo filme, levanta sérias dúvidas sobre a sexualidade do personagem, tema de discussão de estudiosos do cânone de Conan Doyle – despreocupado com a opinião alheia, atlético (ponto que parece ter sido esquecido em adaptações passadas), e nesses pontos é bem fiel aos contos do detetive. Por mais que as interpretações do herói e de alguns coadjuvantes – Irene Adler por Rachel Mc Adams principalmente – sejam bastante canastronas, a atuação de Jude Law, por exemplo, acrescenta demais ao personagem, John Watson não é mais um gordinho burro, é um sidekick útil, sagaz e proativo.

Como ponto negativo, o excesso de cenas em slow motion, a La Zack Snyder, empobrece o filme, e as repetições constantes das lutas, ainda em câmera lenta demonstrando cada golpe do detetive, acabam ficando enfadonhas e previsíveis, no entanto não comprometem a qualidade do filme, que se não é extraordinário, pelo menos está MUITO acima da média dos blockbusters contemporâneos, em ambas encarnações.

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