Resenha

[Resenha] True Detective OU A série mais incrível de 2014

Olar Freakers, hoje vim falar sobre a minha mais recente paixão (e o porquê não havia assistido não sei): True Detective!

True Detective é uma série de suspense policial, que estreou em janeiro de 2014, pela HBO. Ela possui 8 episódios de aproximadamente 1h cada, e vai ao ar aos domingos. Criada por Nic Pizzolatto (responsável por alguns episódios da série The Killing, mas antes de roteirizar e idealizar a série, era conhecido por seu livro Galveston), e dirigida por Cary Fukunaga (diretor em Jane Eyre),tem um elenco espetacular, encabeçado por Matthew McConaughey (Interestelar, Clube de Compras Dallas, etc) e Woody Harrelson (Jogos Vorazes, Zumbilândia, etc).

A trama da série é bem simples, mas é seu desenvolvimento que a torna tão incrível. Ambientada no estado de Louisiana, EUA, ela se passa em 3 décadas distintas: 1995, 2002 e 2012. Essa linha do tempo vai e volta, o que faz uma conexão bem legal com uma das idéias de Nietzsche citadas na série: a de que o tempo é um círculo plano.

Em 1995 os detetives da divisão de homicídios do estado da Louisiana, Marty Hart (Harrelson) e Rust Cohle (McConaughey) acabaram de se tornar parceiros e ainda estão se adaptando um com o outro. Eles são chamados para investigar uma bizarra cena de crime, onde um corpo foi encontrado numa posição que indica algum ritual ocultista ou algo do tipo. Os dois ficam encarregados de investigar o crime e capturar o culpado, mas esse processo se torna muito difícil, já que sua credibilidade só diminui a medida que o tempo passa. Os dois dão tudo de si nessa empreitada, inclusive trabalhando disfarçados (e nos presenteando com uma cena maravilhosa, de mais ou menos 6 minutos, toda em plano sequência*, que me fez agonizar de desespero junto dos personagens). Com o tempo se esgotando e outras autoridades querendo o controle do caso, eles finalmente capturam o assassino (em uma outra cena magnífica, intercalando os acontecimentos de 1995 e os de 2012) e encerram o caso como heróis. Não é spoiler, acreditem (talvez um pouquinho).

Em 2002 é quando Rust e Marty se desentendem. Rust fica famoso por seus métodos de interrogatório e é chamado para obter a confissão de um criminoso. Durante o processo o homem cita o assassinado de 95 e diz ter informações sobre o crime, e que o culpado ainda está solto. Além disso, ele faz menção ao Rei de Amarelo, que foi citado antes em 95 (e que falarei sobre mais pra frente). Isso é o suficiente para que Rust comece a investigar novamente o caso, de forma obsessiva, irritando seu chefe e algumas pessoas de alto escalão. Por estar fazendo tudo por conta própria e deixando Marty no escuro, isso começa a afastar os dois. Mas é um incidente envolvendo Maggie, a esposa de Marty (interpretada por Michelle Monaghan, de Contra o Tempo), que afasta os dois por completo. Rust é afastado da polícia e some do mapa completamente.

Em 2012, que é onde a série se passa, Rust e Marty são chamados, individualmente, para depor na polícia. Durante o interrogatório, os detetives Maynard Gilbough (Michael Potts, da série Lei e Ordem) e Thomas Papania (Tory Kittles, da série Sons of Anarchy) pedem que eles contem sobre os eventos de 1995 e 2002, deixando por alto o real motivo do interrogatório. Esse é o legal da série: Os anos anteriores são contados a partir das cenas do interrogatório, por meio de flashbacks. A medida que a história vai avançando, os detetives revelam porque Marty e Rust estão lá: Um corpo foi encontrado, possuindo similaridades com o caso de 1995, o que significa que o verdadeiro assassino está a solta ou que alguém está imitando seus passos. Evidentemente, as suspeitas recaem sob um dos dois (vocês precisam assistir pra saber qual!) e Marty e Rust se unem para encontrar o verdadeiro culpado dos crimes, tanto para se livrarem quanto para conseguirem seguir adiante.

O que faz de True Detective uma série tão incrível e, arriscaria a dizer, uma das melhores da atualidade? A lista é interminável!

Vamos começar pela abertura, que assim como todas as séries da HBO, é excepcional. A música se chama “Far from any road”, da banda country The Handsome Family, lançada em 2003. Na abertura vemos cenas e personagens da série, além de paisagens da Louisiana e objetos fetichistas (arrisco dizer que aparecem alguns spoilers leves também, que só percebemos depois de assistir).

A caracterização dos personagens é maravilhosa, até mesmo dos personagens secundários. Não parece que você está assistindo uma série, mas sim está vendo gravações com pessoas reais. O personagem de Harrelson é exatamente o que você imagina de um policial “caipira”: falastrão, prepotente, mulherengo e meio canalha. Já Rust é mais caricato, com seu jeito sério e taciturno e suas frases filosóficas e monólogos existencialistas. Inclusive os diálogos dos dois dentro do carro, que mais são monólogos de Rust, renderam vários memes como esses. Maggie é uma mulher atribulada, sofrendo em um casamento conturbado e fadado ao fracasso, mas que tenta deixar as coisas melhores. São atores incríveis, interpretando pessoas reais, com problemas reais.

Os diálogos são ótimos também, pois te fazem refletir. True Detective tem citações memoráveis (“As pessoas que dão conselhos falam consigo mesmas”) e por mais que algumas conversas entre os dois personagens principais sejam consideradas “cansativas” ou “viajadas”, eu gostei bastante de todas, principalmente as que falam sobre religião e sobre o ser humano. Programas de TV que mexem com seus neurônios (de forma positiva) estão em falta ultimamente. Assim como a fotografia, os efeitos são de chorar e aplaudir em pé. Rust tem alucinações ao longo da série, e todas elas são belíssimas e assustadoras ao mesmo tempo, encaixando direitinho com a temática da série.

Como eu disse antes, a série faz menção ao Rei de Amarelo e a Carcosa, dois termos presentes no livro “O Rei de Amarelo”, de Robert W. Chambers. O livro reúne 10 contos, e os 4 primeiros citam O Rei de Amarelo, uma peça que foi proibida por causar desespero e loucura nas pessoas que a leem, e que também dá nome a uma entidade maligna. Carcosa, no livro, é uma cidade misteriosa e amaldiçoada que é citada na peça, e que provavelmente não se localiza em nosso planeta, ou nossa realidade. Na série, é o local onde se passam os acontecimentos finais do último episódio da temporada. Chambers tirou esse nome da obra de um outro autor, Ambrose Bierce, chamada “Um habitante de Carcosa”. Além disso, a obra de Chambers também faz menção ao Símbolo Amarelo, uma marca que fazia a pessoa que a possuía ter sua mente controlada pelo Rei de Amarelo. Vemos esse símbolo, uma espécie de espiral, diversas vezes durante a série, nos personagens pertencentes ao culto.

Só tenho uma reclamação sobre a série e não é uma reclamação de verdade… Eu acho que os vilões deveriam ter sidos melhores desenvolvidos. Vou explicar: 8 episódios não foram suficientes para cobrir tudo! Não que o final da série em si tenha sido ruim, na verdade eu achei incrível e bem realista. O problema é que todo o confronto com o principal vilão (que também pode ser considerado como “vítima” do culto) começou e terminou no último episódio, e eu gostaria de ter visto um pouco mais sobre o personagem, sobre sua vida e sobre o culto. O mesmo vale para os assassinos capturados em 1995. Mas eu até entendo…

A premissa da série não foi falar sobre o ocultismo em si, nem mostrar rituais ou coisas do tipo, mas sim mostrar a forma como as crenças como um todo afetam as pessoas, a forma como a sociedade é afetada pela podridão que existe no mundo (com uma leve cutucada ao exagero da religião e, como Rust diz, ao egocentrismo que envolve o pensamento dos religiosos), a forma como o mal está enraizado em cada um de nós. A série fala sobre pessoas, e nos mostra como as vidas de Rust e Marty (e a família deste também) foram afetadas pelos acontecimentos nesse período de 17 anos. Ela fala sobre o bem e o mal que existe dentro de cada um de nós e a forma como nós escolhemos abraçar um ou o outro.

Todos os personagens são multifacetados, e mesmo que fiquem pouco tempo em tela nós conseguimos um vislumbre de seus medos e fraquezas. A série fala sobre círculos planos e sobre repetição de padrões, e nós vemos isso o tempo inteiro com os personagens principais. Apesar de se passar em 3 décadas distintas, nós vemos os personagens repetindo as mesmas ações e cometendo os mesmos erros, e vemos como essas escolhas refletem nas pessoas ao redor.

A primeira temporada chegou ao final e me fez ter vontade de assistir tudo de novo imediatamente (e de comprar alguns adesivos de nicotina para ajudar o Rust a tentar parar de fumar). A segunda temporada estreou dia 21/06 e vai nos contar uma história completamente nova. Os atores principais são Colin Farrel (O Vingador do Futuro), Rachel McAdams (Meninas Malvadas <3), Taylor Kitsch (da série Friday Night Lights) e Vince Vaughn (Os Estagiários) e, apesar de Nic Pizzolatto ainda assinar o roteiro, essa temporada trará mais de um diretor. Será que isso vai diminuir a qualidade da série? O que vocês acham?

mundo-freak-true-aventura

*Plano Sequência: É quando toda a ação de uma cena acontece sem cortes. O filme Birdman, vencedor do Oscar de Melhor Filme em 2015, é o mais recente exemplo de um filme gravado em plano sequência (ele não foi inteiramente gravado em plano sequência, mas seus cortes foram planejados de forma que fossem quase que imperceptíveis).

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