Artigo

Criptozoologia: O Shamir

O podcast n°31 do Mundo Freak foi sobre criptozoologia, um tema bastante interessante e que dá muito pano pra manga. Ouvindo o cast, me lembrei de uma criatura bastante peculiar que, apesar de não ser descrita na Torá, é sempre lembrada em outros livros da tradição cabalista.

Recentemente, uma Instituição Unicamente Religiosa e Dogmática, sem fins lucrativos, inaugurou com pompa e circunstância um templo gigantesco no bairro do Brás, em São Paulo, com a presença de autoridades como o governador do Estado e o feminino de presidente da República. Segundo o Eminente Diretor de Instrução Religiosa dessa instituição, o templo foi construído a partir de “um projeto feito por Deus, executado pelos seus servos e único no mundo inteiro”.

Sei...

Sei…

Me lembrei de um templo com semelhantes características, em Jerusalém, mas que jamais poderia ser reproduzido em qualquer lugar do mundo (nem mesmo lá), devido às circunstâncias em que teria sido erigido.

O Templo de Salomão, ou Beit HaMikdash, do original hebraico, foi construído na antiga Jerusalém, no Monte Zion, durante o reinado, sim, dele, o Rei Salomão (daí o nome, rá!), por volta de 832 antes da era cristã, tendo sido destruído por Nabucodonosor em 587aec. Contudo, não há evidências arqueológicas concretas da existência deste templo. O processo de sua construção é tão misterioso que envolve desde sociedades secretas, como a Maçonaria, até mesmo a lesmas mutantes.

Tratando-se de um templo onde a própria Presença Divina (a Shechiná) habitaria, uma série de cuidados foi tomada na sua construção. O que nos interessa agora: nenhuma ferramenta que pudesse ser usada como arma deveria ser utilizada durante a construção. O Zohar declara que o templo “foi construído com pedras preparadas na pedreira e não houve martelo ou machado ou qualquer utensílio de ferro se ouviu na casa enquanto o edifício se edificava”. A respeito disso, Rabino Shimeon disse: “A frase ‘se edificava’ implica auto-edificação, significando que as mãos dos artesãos não tocaram nas pedras’”. Ok, agora as coisas começam a ficar interessantemente estranhas.

Se nenhuma ferramenta que pudesse causar derramamento de sangue foi utilizada, então como diabos (ops!) conseguiram cortar os pesados blocos de pedra que foram usados para erigir o templo?

É aí que ele entra

É aí que ele entra

A Cabalá nos fala do shamir: uma espécie de verme que, com sua secreção, era capaz de cortar não apenas rocha, mas também metal ou até o diamante. O shamir seria um pouco menor que um grão de cevada e seria uma das dez criações milagrosas de Deus no crepúsculo do sexto dia (o Hexameron).

Para satisfazer sua curiosidade, as outras nove, sobre as quais posso voltar a falar, eventualmente:
1) a abertura no chão que engoliu Korach e seus rebeldes
2) o poço de Miriam, história narrada num midrash
3) a boca da mula falante de Balaão
4) o arco-íris de Noé
5) o maná
6) o cajado de Moisés
7) o shamir
8) o alfabeto hebreu (em outras fontes, o alefbeit foi criado dois dias antes do primeiro dia da Criação)
9) as duas tábuas, onde foram gravados os Dez Mandamentos
10) a inscrição dos Mandamentos nas tábuas

Após criar o shamir, no sexto dia da Criação, Deus o teria deixado aos cuidados do poupa, uma ave parecida com o pica-pau que prometeu guarda-lo com sua vida. Por eras, o poupa manteve o shamir consigo no Jardim do Eden e, quando sobrevoava o “nosso” mundo, o levava no bico para cortar rochas e até montanhas enquanto procurava alimento. Até que um dia, Deus pediu o shamir de volta para uma tarefa especial. O povo hebreu vagava pelo deserto, após deixar o Egito e Aaron, o sumo-sacerdote e irmão de Moisés, estava pronto para erigir o Tabernáculo.

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O Tabernáculo era um “santuário portátil”, um conjunto de tendas em que os hebreus guardavam a Arca da Aliança a menorá e demais objetos usados nos cultos, até que fosse possível erigir um templo.

Teria sido utilizado primeiramente por Moisés, para gravar em doze diferentes tipos de pedras semi-preciosas os nomes das tribos de Israel, que seriam usadas na vestimenta do sumo-sacerdote. Moisés pegava uma pedra lapidada, escrevia o nome da tribo com tinta e mostrava para o shamir. Voilá! Só de olhar, esse bicho bizarro já gravava o nome na pedra conforme Moisés queria.
Depois disso, Deus teria devolvido o shamir aos cuidados do poupa.

Para conseguir construir o templo conforme ele é descrito na Torá, o Rei Salomão precisou pedir orientação, pois uma série de problemas logísticos dificultavam a tarefa. Por exemplo, já que não podiam usar ferramentas de ferro, como cortar as pedras e a madeira? Foi quando seus conselheiros mencionaram o shamir pela primeira vez.

De acordo com os diferentes relatos (Zohar, Midrash, Talmud, Gemará), o Rei Salomão pode ter mandado seus servos ao redor do mundo para encontrar o shamir, tendo achado o dito cujo no fundo de um poço, ou recebido a informação de seu paradeiro de Asmodeus, o Rei dos Demônios. Ao ser invocado, Asmodeus contou que não detinha o shamir consigo, sendo, na verdade, uma posse do Rei do Mar…

Aquaman

O Rei do Mar, por sua vez, contou que o shamir estava aos cuidados do poupa. Para conseguir o verme, os homens do Rei esperaram até que o poupa deixasse seu ninho para procurar comida para seus filhotes, cobrindo-o com um vidro branco. Ao voltar para o ninho, o poupa colocou o shamir sobre o vidro para quebrá-lo e o emissário de Salomão aproveitou para assustar o pássaro. Em choque, o poupa derrubou o shamir, que foi imediatamente embalado para a viagem. O poupa, então, se matou, por não ter sido capaz de cumprir a função para a qual fora designado.

Muitas fontes descrevem o shamir como um mineral ou uma espécie de gelatina encontrada na natureza, mas a descrição mais aceita, do shamir como um ser vivo, vem dos relatos de que ele cortava pedra, madeira ou metal só de olhar para esses elementos. Se ele olhava, tinha olhos, logo.

O único jeito seguro de conter o shamir era dentro de uma caixa de chumbo, envolto em seda e com alguns grãos de cevada para se alimentar. Por conta desse relato sobre a caixa de chumbo, o shamir foi referido por Immanuel Velikovsky, um psiquiatra russo-judeu, autor de uma série de livros que reinterpretam acontecimentos da história antiga, como sendo radioativo.

Seus livros usam mitologia comparada e fontes literárias arcaicas (incluindo a Torá) para alegar que a terra sofreu aproximações catastróficas com outros planetas (principalmente Vênus e Marte) em tempos passados. Velikovsky alegava que os efeitos eletromagnéticos têm um papel importante na mecânica celestial. Ele propôs também uma cronologia revisada para o Antigo Egito, Grécia, Israel e outras culturas do Oriente Próximo antigo. A cronologia revisada visava explicar a assim chamada “idade das trevas” do leste do Mediterrâneo (c. 1100-750 aec) e conciliar a história bíblica com a arqueologia acadêmica, e a cronologia egípcia.

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E até bonitinha

Finalmente, o shamir teria perdido sua habilidade de cortar qualquer coisa quando da destruição do Templo por Nabucodonosor. Ele não teria sido destruído, apenas “desativado” de alguma forma, tornando-se uma criatura comum e inofensiva.

Em seu livro Sacred Monsters, o Rabbi Natan Slifkin questiona se o shamir não seria, na verdade, o verme comedor de pedras euchondrus, bastante comum no Chipre, Turquia, Síria, Jordânia e Israel. Esses mini-moluscos comem o líquen que cresce na superfície das rochas usado um órgão semelhante a uma “língua dentada” para raspá-las. Porém, para que o euchondrus conseguisse cortar as rochas eficientemente, seriam necessários muitos e muitos anos.

Como todas as criaturas fantásticas da Torá, incluindo-se aí o Leviaethan, o Behemoth, unicórnios e a cobra falante, o shamir permanece sendo estudado e analisado como uma curiosidade da criptozoologia. Mas a verdade é que, ainda que não seja possível provar arqueologicamente que realmente existiu um Templo de Salomão, é inegável que a série de relatos pertinentes a essa criaturinha podem, posteriormente, encontrar reflexos na cultura pop, como em Duna, que foi citado no cast.

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