Making a Murderer: A justiça americana também é falha!

A galera que me conhece há algum tempo sabe da minha fixação com o caso do Adnan Syed, contado na primeira temporada do podcast Serial (que você pode saber um pouco mais clicando aqui. O caso se tornou famoso mundialmente e vários outros podcasts foram criados, livros estão por vir e a possibilidade de um novo julgamento para Adnan é bem real. Então quando a Netflix anunciou Making a Murderer eu percebi que iria em breve mergulhar de novo na mesma espiral que foi Serial.

A série estreou em dezembro de 2015, dirigida e roteirizada por Laura Ricciardi e Moira Demos, com 10 episódios de aproximadamente 1h cada. Eu relutei bastante em assistir porque não queria passar pelo mesmo apego/tortura emocional que passei com o caso do Adnan. Mas depois de fazer uma pesquisa rápida pelo nome de Steven Avery não consegui resistir. Vou tentar ser concisa, mas já aviso que tô empolgada!!!

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Steven era o jovem de 23 anos que vocês podem ver na foto acima, não muito inteligente, que já tinha se metido em problemas com a polícia antes. Ele morava no condado de Manitowoc, Wisconsin, no começo dos anos 80, sua família era (ainda é) dona de um ferro velho e seu sobrenome não era  muito bem visto nas redondezas. Uma de suas primas, Sandra Morris, tinha como hobby espalhar histórias sobre ele e sua esposa e Steven tem a péssima ideia de assustá-la na estrada, com seu carro e uma arma descarregada, para que ela parasse de falar sobre ele. O problema é que Sandra é casada com um policial que leva o acontecido pro coração e Steven é acusado de colocar a vida de sua prima em perigo e é fichado na polícia mais uma vez.

Avançamos mais alguns meses. Uma mulher é agredida e atacada sexualmente enquanto fazia uma caminhada na praia. Após ser encontrada e levada ao hospital, a polícia pede a descrição do suspeito. “Cabelos grandes e jaqueta de couro”, diz Penny Ann Beerntsen, descrevendo grande parte da população masculina nos anos 80. Mas a policial é amiga de Sandra Morris e se lembra do ocorrido meses atrás, levando A FOTO DE STEVEN junto com a descrição da vítima para o responsável pelo retrato falado. Retrato pronto, foto mostrada, Penny obviamente reconhece Steven como seu agressor e ele é condenado a 32 anos de prisão.

Steven tinha um sólido álibi, confirmado por 16 pessoas, e havia outro homem, Gregory Allen, que estava sob vigilância por cometer crimes parecidos com o de Penny (mas que não havia sido vigiado no momento do crime) que era um suspeito muito mais provável que ele. Mesmo assim Steven continuou preso e só foi inocentado em 2003, quando um juiz permitiu que o DNA fosse testado, e foi comprovado que ele pertencia a Gregory Allen.

O que você faria se tivesse passado 18 anos preso por um crime que não cometeu? Sua vida foi destruída, sua juventude perdida, seu casamento desfeito. Você jogaria tudo no ventilador e processaria Deus e o mundo? Você continuaria morando no mesmo lugar, dependendo dos mesmos oficiais da lei que te colocaram na prisão e que você tá processando? Tem certeza?

Steven passou os 2 anos seguintes brigando na justiça por uma indenização milionária que lhe traria um pouco de consolo. Ele recebeu rapidamente o status de herói, de sobrevivente, e estava irritando muitas pessoas importantes dentro do corpo de polícia.  Em outubro de 2005 a jovem Teresa Halbach visita a propriedade dos Avery para fotografar um automóvel que seria anunciado em uma revista de carros. Essa não era a sua primeira visita, mas nesse dia, após visitar a propriedade dos Avery, ela sumiu.

Steven é interrogado, assim como membros de sua família, e as buscas começam. Alguns dias depois o carro de Teresa é encontrado dentro do Ferro Velho dos Avery, estacionado bem à vista. A propriedade inteira é interditada para as buscas, que duram SEMANAS. Os cômodos são revistados várias vezes, pela mesma força policial que estava sendo processada por Steven. São revistados tantas vezes que começam a aparecer misteriosamente as evidências que antes não estavam lá. Objetos, manchas de sangue, balas de revolver e ossos carbonizados. Ossos com marcas de transporte e sem evidências fotográficas, chaves cujo ÚNICO DNA era o de Steven, balas de revólver que só apareceram meses depois. E Steven vai preso de novo, sentenciado a prisão perpétua.

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Se toda essa história já não fosse bizarra o suficiente, temos o interrogatório mais bizarro do mundo, onde 2 policiais questionam Brendan Dassey, sobrinho de Steven, sobre sua suposta participação no assassinato de Teresa. Brendan tem 16 anos na época, além de ser extremamente sugestionável e ter problemas cognitivos. Durante todo o interrogatório ele simplesmente diz aos policiais o que eles querem ouvir, na base da tentativa e erro.

“Como você e Steven mataram Teresa?”
“Nós esfaqueamos ela?”
“Não, Brendan….”
“Enforcamos ela?”
“Não, teve algo com a cabeça…”
“Atiramos nela?”
“Isso!”

Sim. É real. E continua por bastante tempo. Inclusive o Brendan dá uma versão completamente sangrenta que eles precisaram descartar porque não haviam vestígios de sangue na casa de Steven. O Brendan também está preso, mesmo tendo dito no tribunal que tirou tudo de um livro que ele tinha lido e só contou aquelas coisas porque achou que era o que os policiais queriam saber e que poderia ir pra casa depois… é tanta coisa bizarra e revoltante que só assistindo pra entender.

Making a Murderer é algo surreal. Os acontecimentos narrados por vezes são tão absurdos que parecem mentira. As atitudes dos policiais retratados na série são tão hediondas que o Departamento de Turismo do Condado de Manitowoc recebeu inúmeros telefonemas de pessoas revoltadas, perguntando como poderiam visitar um local tão corrupto. Até os órgãos superiores, como a Suprema Corte do Winsconsin, tentam silenciar as vitimas e minimizar, ou até omitir, o envolvimento dos policiais. Toda a polêmica que envolve o programa se criou porque ele escancarou toda a corrupção existente na força policial americana, e continuando o trabalho “começado” com Serial, abriu as portas para que vários outros casos de vereditos errados pudessem ser contados. Steven Avery foi vítima de negligencia policial e, ao tentar denunciar a injustiça que sofreu, voltou para trás das grades.

Como eu disse no começo do post, tenho um apego emocional muito forte com esse tipo de história. Me sinto mal por todas as pessoas envolvidas e a série mostra como uma família inteira foi devastada social, psicológica e financeiramente por um grupo de pessoas que não conseguiram aceitar o fato de que seriam responsabilizados por seus erros. Que não conseguiam aceitar que um homem pobre e sem estudo pudesse vencê-las. Que se aproveitaram de seus cargos da lei para incriminar e tirar vantagem de uma pessoa inocente, sem se preocupar em fazer justiça com a família que sofreu a perda de um ente. Precisei de muito estômago e vários lencinhos de papel pra conseguir assistir.

Algum de vocês já assistiu ou pretende assistir? Vejo vocês nos comentários!

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