Serial Killers – Charles Manson

“Quando eu chego ao fundo, eu volto ao topo do declive
Onde eu paro e me viro, saio para outra volta
Até que eu volte ao fundo e te veja novamente”.

 As palavras acima são uma livre tradução dos primeiros versos da música que muitos consideram a percursora do Heavy Metal. Trata-se de “Helter Skelter”, presente no famoso Álbum Branco dos Beatles. Na Inglaterra, “Helter Skelter” era o nome de um tobogã em espiral que mais tarde teve seu uso adaptado para os parques aquáticos. Outra tradução para esta expressão é “grande confusão ou conflito”. No entanto, para um americano nascido em Cincinnati, Ohio, isso tinha outro significado.

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Charles Manson, aos cinco anos de idade

Este é o segundo artigo da série sobre Serial Killers. Estamos falando de Charles Milles Manson, um homem que, até ficar famoso, tinha passado a maior parte de sua vida na prisão por pequenos crimes. Para ele, “Helter Skelter” era uma grande guerra racial que estava prestes a começar. Na verdade, ele via esse conflito como o fim-dos-tempos e dizia que os Beatles eram os Quatro Cavaleiros do Apocalipse que iriam liderar os jovens a uma nova era.

Manson também acreditava que os Beatles se comunicavam com ele através de suas músicas e o convidavam a iniciar a batalha final contra os negros, a quem ele nutria imenso ódio. Na música “Piggies” (algo como “porquinhos”), por exemplo, ele interpretou o verso “What they need’s a damned good whacking” (“O que eles precisam é de uma boa surra), como sendo uma mensagem clara de que os “porcos” (a sociedade alienada) precisavam sofrer. E foi isso que, daqui de perto de onde eu moro na ensolarada Califórnia, ele tentou fazer.

Como um bom hippie, ele se mudou para San Francisco no famoso “verão do amor” de 1967, pouco tempo depois de sair da prisão por fraude financeira e outros crimes menores. Lá ele teve contato com a Cientologia, especialmente uma discidência dela, a “Igreja do Processo do Julgamento Final”, que adorava tanto a Deus quanto a Lúcifer, acreditando que ambos iriam se reconciliar no Apocalipse. Junto com essas ideias e outras que ele mesmo criou, Charles Manson começou a ficar famoso como um guru espiritual.

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A Família Manson

Quando conheceu e se mudou para a casa da bibliotecária Mary Brunner, ele passou a convidar outras garotas para viverem com eles em uma comunidade onde orgias, drogas e música era tudo o que importava. A este grupo de pessoas, ele deu o nome de “Família Manson“. Na prisão ele aprendera a tocar violão e, vivendo no mesmo bairro de celebridades como Janis Joplin, tentou buscar o sonho de se tornar uma estrela do Rock. Comprou um ônibus escolar, pintou-o de preto e partiu junto com sua “trupe” para Los Angeles, onde estavam as grandes gravadoras.

Em sua busca por sucesso, ele chegou até a gravar um disco (Lie: The Love and Terror Cult) e a fazer amizade com um dos Beach Boys, Dennis Wilson. No entanto, seu passado como criminoso e o comportamento alucinado dele e de seus amigos fizeram com que não conseguisse a almejada fama. Junto com um dos membros da “Família”, Charles “Text” Watson, Manson vivenciou o que mais tarde chamou de “iluminação”. Eles visitavam o Cânion Topanga quando foram apresentados ao já citado Álbum Branco dos Beatles. Nessa experiência, ele sentiu que a banda falava com ele através de mensagens ocultas.

Em “Honey Pie”, por exemplo, a letra diz “Oh, meu bem, minha posição é trágica/ Venha me mostrar a magia/ De sua canção de Hollywood/ Oh, meu bem, você está me deixando louco/ Atravesse o Atlântico/ Para estar no lugar ao qual pertence”. Manson entendeu que isso significava que os Beatles sabiam que a reencarnação de Jesus Cristo vivia em Los Angeles e o convidavam a juntar-se a eles em Londres. Por ordem dele, alguns de seus seguidores tentaram entrar em contato com os Beatles para dizer que Manson havia entendido o recado, mas que eram eles que deveriam ir à Califórnia se juntar ao Messias. Obviamente, foram ignorados.

 “O quinto anjo tocou a trombeta, e vi uma estrela caída do céu na terra. E foi-lhe dada a chave do poço do abismo.
Ela abriu o poço do abismo, e subiu fumaça do poço como fumaça de grande fornalha, e, com a fumaceira saída do poço, escureceu-se o sol e o ar.
Também da fumaça saíram gafanhotos para a terra; e foi-lhes dado poder como o que têm os escorpiões da terra”. 

(Apocalipse, Capítulo 9. Versículos 1 a 3)

 Com um discurso eloquente, ele convenceu seus seguidores de que os Beatles eram os quatro Cavaleiros do Apocalipse e ele era o quinto anjo que iria se juntar a eles para o Dia do Juízo Final. Ele entendia que os “gafanhotos” citados na passagem bíblica eram na verdade besouros (beetles, em inglês). Não apenas isso, mas de que esse quinto anjo (ele mesmo) era o próprio Jesus Cristo reencarnado. Aqueles que com ele viviam seriam os únicos brancos poupados de um massagre promovido pelos negros.

Vale aqui comentar um pouco mais sobre a organização dessa sociedade hippie da qual ele era o líder. Quando alguém era aceito na “Família Manson”, seu antigo nome era esquecido e a pessoa ganhava uma nova denominação. Documentos eram jogados fora e qualquer coisa que a pessoa possuia era agora de propriedade do Messias. Susan Atkins, por exemplo, era chamada de Sadie, em referência à música “Sexy Sadie“, do (advinhe!) Álbum Branco, dos Beatles.

Este grupo era machista ao ponto de que, durante as refeições, primeiro comiam os homens, depois os cães e só então as mulheres. As orgias eram constantes e as mulheres não tinham nem o direito a cuidar de seus filhos. Estes eram criados por todos em conjunto como forma de que não “criassem raízes”. O próprio Charles teve, com diferentes mulheres, três filhos. Os partos foram feitos por ele mesmo, que cortou os cordões umbilicais com os dentes.

Manson dizia que o mundo era uma ilusão, incluindo a própria morte. Sendo assim, quando matassem alguém, eles na verdade o estavam libertando. Ele usava de seu forte carisma e treinado poder de persuação para convencer seu grupo de que todas suas atitudes eram necessárias e justificáveis.

Quando se mudaram para Los Angeles, o grupo morou por um tempo na casa do baterista dos Beach Boys, Dennis Wilson. Dennis e Charles usavam as mulheres da “Família” como suas escravas sexuais, mas isso custou muito caro ao famoso músico, que pagou pelo tratamento das doenças venéreas de todo grupo além de despesas com o conserto de seu carro e de objetos quebrados na casa. O total gasto chegou a cem mil dólares. De lá eles se mudaram para um rancho próximo ao deserto do Vale da Morte. O dono do local, George Spahn, velho e cego, deixou-os morar de graça em suas terras em troca de ajuda para se locomover e favores sexuais das garotas.

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Tex Watson

Em 1969, o braço direito de Manson, Tex Watson roubou dois mil dólares do traficante Bernard Crowe. Este tentou se vingar e, para defender seu clã, Charles Manson acertou-lhe um tiro na barriga. Crowe não morreu, não prestou queixa à polícia e deixou o grupo em paz. Este episódio, contudo, aumentou a paranóia da “Família”. Eles compraram diversas armas e se prepararam para a guerra que acreditavam estar próxima.

O primeiro homicídio conhecido da irmandade assassina foi contra o professor de música Gary Hinman. Gary era amigo de alguns membros da “Família Manson” e também produtor caseiro de mescalina. Não se tem certeza dos reais motivos (existem duas versões para isso), mas Charles Manson enviou alguns de seus seguidores para extorquir dinheiro do professor, que se recusou a dar-lhes qualquer quantia. Eles o mantiveram preso por três dias antes de esfaqueá-lo até a morte. Nas paredes escreveram, com o sangue da vítima, a mensagem “Porco Político” junto com o símbolo dos Panteras Negras, na tentativa de incriminar os ativistas afro americanos.

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Sharon Tate e Roman Polanski

Poucos meses depois, já de relações cortadas com o Beach Boy Dennis Wilson, Charles Manson foi até a casa onde antigamente morava o produtor da banda, Terry Melcher, na Cielo Drive. Chegando lá, descobriu que Melcher não mais morava no local. A casa foi alugada pelo diretor de cinema Roman Polanski para que sua mulher, Sharon Tate, pudesse morar ao lado de amigos enquanto ele filmava seu próximo filme na Europa.

Os novos moradores da mansão o trataram muito mal e isso o deixou profundamente irritado. Dias depois, ele ordenou que alguns de seus seguidores fossem ao local e matassem todos que ali encontrassem. Eles foram brutalmente assassinados, incluindo Sharon Tate, grávida de oito meses. O bebê não sobreviveu. Este crime levou pânico a Hollywood, pois achava-se que outros artistas poderiam ser as próximas vítimas.

Charles Manson achou que o crime foi muito barulhento e que eles só não foram presos por sorte. Na noite seguinte, ele chamou seus discípulos para mostrar “como se faz”. Aleatoriamente, entrou na casa de Leno e Rosemary LaBianca. Ele os rendeu, deixando-os amarrados e saiu da casa, dando a ordem para que os integrantes da família fizessem o serviço enquanto ele os esperava no carro.

Investigações da polícia de Los Angeles levaram à prisão de Charles Manson e sua “família” pelo roubo de carros. No entanto, a relação deles com os assassinatos só foi possível quando a mais fiel seguidora de Manson, Susan Atkins, confessou detalhes dos assasinatos a uma colega de cela. O julgamento foi acompanhado por todo o país e, por fim, Charles Manson acabou confessando tudo.

Ele e quase todos os membros da “Família” foram condenados à morte, mas, quando o estado da Califórnia aboliu este tipo de punição, esta pena foi convertida à Prisão Perpétua. Após serem condenados, outros corpos foram achados enterrados perto do deserto em que eles moravam e, por isso, acredita-se que os crimes do grupo são ainda maiores.

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Charles Manson, em foto recente

Mesmo vivendo isolado na Prisão Estadual de Concoran, Charles Manson até hoje tem importante presença na mídia, seja como tema de vários filmes, como inspirador para artistas do calibre de Marilyn Manson, pelas entrevistas que deu anos depois, pelas músicas que gravou da prisão ou mesmo por ser a principal atração de locais como o Museu da Morte em Los Angeles, que obviamente visitei logo nas minhas primeiras semanas na cidade. Não exatamente como ele imaginava, mas esta criativa e cruel mente conseguiu realizar seu maior sonho: se tornar uma grande estrela da cultura pop.

Sobre Igor Alcantara

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Escritor residente em Los Angeles, apaixonado por coisas freaks e que adora falar sobre os mais diversos assuntos.

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